A Professora Doutora Maria Santana Milhomem, Magnífica Reitora da Universidade Federal do Tocantins (UFT), defendeu, em Luanda, a necessidade de uma articulação efectiva entre a academia e as instituições de controlo externo como condição essencial para enfrentar os desafios contemporâneos da governação pública, sublinhando que o conhecimento só cumpre plenamente a sua missão quando é transformado em inovação e em soluções concretas para a sociedade.
A intervenção sobre o tema “Conhecimento, Inovação e Controlo Externo: Contributos da Academia para a Jurisdição Financeira no Século XXI”, teve lugar no 2º dia das Jornadas Científicas do Tribunal de Contas de Angola, no âmbito das celebrações dos 30 anos da criação legal da instituição.
No plano substantivo da sua intervenção, a académica centrou-se na importância estratégica das instituições de ensino superior na produção de conhecimento aplicado e na sua ligação directa às necessidades reais da sociedade. Defendeu que as universidades não podem permanecer encerradas em si mesmas, afastadas dos problemas concretos das comunidades, devendo, pelo contrário, assumir um papel activo na identificação, estudo e resolução de desafios sociais, económicos e institucionais.
A este propósito, sublinhou que a investigação científica deve estar orientada para problemas reais e não para exercícios meramente teóricos ou desligados da realidade. “Não falta problema para nenhum investigador”, afirmou, acrescentando que o verdadeiro desafio reside na capacidade de mobilizar conhecimento, vontade e compromisso para transformar essas problemáticas em soluções eficazes.
No domínio do ensino, destacou a necessidade de adaptação das universidades às novas dinâmicas sociais e tecnológicas, incluindo a criação de cursos alinhados com as exigências contemporâneas, como é o caso da inteligência artificial. Referiu que a formação académica deve privilegiar metodologias activas, centradas na prática e na resolução de problemas, aproximando os estudantes das realidades sociais e institucionais que irão enfrentar no futuro.
A Reitora enfatizou, igualmente, o papel da extensão universitária como instrumento fundamental de ligação entre a academia e a sociedade, defendendo a integração efectiva entre ensino, investigação e intervenção comunitária. Sublinhou que as universidades devem actuar como espaços de construção colectiva do conhecimento, valorizando também os saberes tradicionais e promovendo o diálogo entre diferentes formas de conhecimento.
No campo da inovação, Maria Santana Milhomem destacou a importância da criação de ecossistemas institucionais que promovam a transferência de tecnologia, o empreendedorismo e a cooperação com o sector público e privado. Referiu iniciativas da UFT como incubadoras sociais, parques tecnológicos, agências de inovação e projectos de internacionalização, todos orientados para a valorização do conhecimento e o seu impacto na sociedade.
Um dos pontos centrais da sua intervenção foi a defesa de uma agenda de investigação e inovação construída a partir das necessidades locais, com impacto directo nas políticas públicas. Neste sentido, sublinhou que os Tribunais de Contas podem beneficiar significativamente do conhecimento produzido nas universidades, sobretudo no apoio à formulação, monitorização e avaliação de políticas públicas, bem como na incorporação de novas tecnologias nos processos de fiscalização.
A académica destacou ainda a importância das políticas de inclusão no ensino superior, referindo o sistema de acção afirmativa adoptado no Brasil, que visa garantir o acesso de grupos historicamente desfavorecidos à universidade, sem descurar a necessidade de assegurar condições de permanência e sucesso académico.
No plano internacional, defendeu o reforço das parcerias entre universidades e instituições de controlo, incluindo no espaço lusófono, considerando que a cooperação entre Angola e o Brasil constitui um exemplo promissor de intercâmbio de conhecimento e de fortalecimento institucional.
A Reitora destacou o papel da liderança visionária da Corte angolana na construção de parcerias institucionais sólidas, reconhecendo o contributo do Juiz Conselheiro Presidente, Dr. Sebastião Domingos Gunza, e do Conselheiro André Luiz de Matos, magistrado do Tribunal de Contas do Estado de Tocantins, para o estreitamento das relações entre o Tribunal de Contas de Angola e a Universidade Federal do Tocantins. Sublinhou que estas conexões representam exemplos concretos de como a cooperação internacional pode potenciar o desenvolvimento institucional e científico.
Apresentando a realidade da UFT, Maria Santana Milhomem caracterizou a instituição como uma universidade jovem, com forte vocação inclusiva e regional, que conta com mais de 17 mil estudantes e presença em cinco campus, desempenhando um papel relevante na democratização do acesso ao ensino superior e na promoção do desenvolvimento local no Estado do Tocantins. Destacou, igualmente, o simbolismo da sua eleição como primeira mulher negra a assumir a reitoria da universidade, o que, em seu entender, evidencia o compromisso da instituição com políticas de inclusão e equidade.
Na parte final da sua comunicação, Maria Santana Milhomem deixou uma mensagem clara sobre o papel das universidades no século XXI: transformar conhecimento em inovação útil à sociedade. Sublinhou que o futuro não será construído apenas por aqueles que detêm conhecimento, mas por aqueles que conseguem aplicá-lo de forma efectiva na resolução dos problemas colectivos.
Concluiu apelando à construção de pontes entre instituições, defendendo que a cooperação, a partilha de recursos e o diálogo interinstitucional são caminhos indispensáveis para potenciar o impacto do conhecimento e evitar a dispersão de esforços e recursos.
A intervenção da Magnífica Reitora da Universidade Federal do Tocantins constituiu um momento de elevada densidade académica e institucional, reforçando a importância da articulação entre saber científico, inovação tecnológica e controlo externo, num contexto global cada vez mais exigente e orientado para resultados.
TEXTO: Alexandre Cose
FOTOGRAFIAS: Mauro Teixeira e Filipe Lucas