Itinerário pelo Centro de Ciências, pelo Memorial Doutor António Agostinho Neto e pelo Memorial às Vítimas dos Conflitos Políticos encerrou o programa do IX Seminário das Instituições Superiores de Controlo da CPLP. Representantes de Timor-Leste e de Cabo Verde enaltecem a partilha de memórias de luta e de paz.
Luanda, 30 de Outubro de 2026 — Num mergulho pela memória, pela cultura e pela resiliência do povo angolano, as delegações da Organização das Instituições Superiores de Controlo da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (OISC-CPLP) efectuaram, no dia 30 de Outubro, uma visita histórica e cultural a três espaços de referência da cidade de Luanda. A iniciativa, que coroou o programa do IX Seminário da OISC-CPLP e do III Encontro dos Jovens Auditores, permitiu aos participantes percorrer um itinerário que vai da ciência à reconciliação nacional, depois de 3 dias de trabalho intenso em torno da transformação digital, da sustentabilidade e da transparência.
O ponto de partida foi o Centro de Ciências de Luanda, onde o rigor científico se uniu à interacção lúdica. Os visitantes foram desafiados a testar o olfacto num jogo interactivo de descoberta que, numa divertida competição sobre quem possuía o melhor apuro sensorial, ditou a vitória das senhoras, num momento de boa disposição que quebrou o protocolo e aproximou as delegações.
Seguiu-se uma imersão na história das indústrias extractivas de Angola, com destaque para a geologia nacional e para o kimberlito, a rocha hospedeira do diamante. A viagem pela identidade angolana completou-se com a evocação da cultura bantu e dos povos de Angola, onde o ritual de iniciação Efico mereceu especial atenção. A experiência no Centro culminou numa viagem cinematográfica pelo céu de Angola e pelo universo, na sala do planetário, uma pausa contemplativa que lembrou aos auditores que o rigor, seja na ciência ou no controlo, nasce da curiosidade.
O legado do Pai Fundador da Nação
De seguida, a comitiva dirigiu-se ao Memorial Dr António Agostinho Neto. Inspirado no poema «Viagem na Estrela», o monumento teve a primeira pedra lançada a 17 de Setembro de 1982, foi concluído em 2011 e inaugurado em 2012. Ergue-se com a finalidade de exaltar os feitos do Pai Fundador da Nação Angolana, primeiro Presidente da República Popular de Angola e figura maior da literatura, autor de obras como «Sagrada Esperança» e «Renúncia Impossível», falecido a 10 de Setembro de 1979.
No museu anexo, as delegações tomaram contacto com uma história viva: a mobília do seu escritório, as vestimentas usadas em ocasiões de relevância histórica e, num momento de profundo respeito, visitaram o sarcófago onde repousam os restos mortais do primeiro Presidente de Angola. O silêncio que se fez ali disse mais do que qualquer discurso.
A lição da reconciliação
O roteiro encerrou no Memorial às Vítimas dos Conflitos Políticos, um edifício moderno e recentemente inaugurado. Ali, os visitantes confrontaram-se com a história dura, mas superada, da reconciliação do povo angolano. O percurso narrativo levou-os desde o desentendimento político entre os movimentos de libertação nacional (MPLA, UNITA e FNLA), passando pelo fraccionismo, pelas trincheiras da Mavinga e pelo ataque aos comboios do Zenzo do Itombe, até ao abraço da paz, em 2002. Uma lição de superação, em que a desconfiança deu lugar ao perdão, e que fez de um espaço de memória uma verdadeira escola de convivência.
Vozes da CPLP: emoção e partilha
No final da visita, a equipa do Gabinete de Comunicação Institucional e Imprensa (GCII) do Tribunal de Contas de Angola recolheu os testemunhos de três ilustres visitantes, que partilharam a emoção e as lições que levam para os respectivos países.
Para Edígia Martins, Auditora Coordenadora da Câmara de Contas de Timor-Leste, a visita tocou na semelhança das histórias de luta dos dois povos:
«Nesta visita, gostei muito do Museu Doutor Agostinho Neto e também do outro museu. Além de ouvir as histórias sobre o povo angolano, vi a experiência partilhada sobre os heróis, principalmente o primeiro presidente de Angola. Acho que houve uma luta muito forte, mas, no fim, conseguiram superar todos estes momentos. Nós sabemos que Timor-Leste é um país muito forte na cultura. Com esta visita, percebemos que temos uma história semelhante em termos de luta. […] Angola é um país muito lindo, tem pessoas muito simpáticas e, aqui, sentimos como se estivéssemos na nossa casa.»
Vítor Monteiro, Conselheiro do Tribunal de Contas de Cabo Verde, destacou a ligação histórica entre os dois países e o regresso a memórias pessoais, pois viveu em Angola durante quatro anos, na infância. Do Centro de Ciências guardou o interesse pelos recursos naturais; do Memorial Agostinho Neto, a relação do fundador da nação angolana com Amílcar Cabral e a passagem por Cabo Verde:
«O Doutor Agostinho Neto conviveu de perto com o nosso líder, Amílcar Cabral. Ficou registada a sua passagem por Cabo Verde, onde pôde exercer a sua profissão. […] Este tipo de actividades culturais permite-nos enriquecer como pessoas e criar aquele clima de amizade. Além disso, vivi em Angola quando era criança, durante quatro anos, e estou a reviver alguns momentos da minha infância.»
Por sua vez, João da Cruz Borges Silva, Presidente do Tribunal de Contas de Cabo Verde, leu no Memorial da Reconciliação um sinal de futuro:
«Acabamos de fazer uma visita ao Memorial Doutor Agostinho Neto e ao Memorial da Reconciliação Nacional, que simboliza, de certa forma, que Angola está a dar passos seguros, mas bastante fortes, para a reconstrução nacional e para o bem de todo o povo angolano. Desejo ao povo angolano que esta reconciliação venha a fortalecer-se e a beneficiar a todos. As explicações que se deram aqui e as impressões recolhidas serão levadas também para a nossa realidade.»
A visita das delegações da OISC-CPLP aos monumentos históricos de Luanda transcende o mero roteiro turístico. Consolida os laços de irmandade e a partilha de memórias que unem os povos da Comunidade, e mostra que a história de Angola, da ciência à luta de libertação e da dor do conflito ao abraço da paz, é um património de resiliência que inspira e enriquece quem a conhece.
Com esta iniciativa, o Tribunal de Contas de Angola, anfitrião do IX Seminário, deixa uma mensagem clara aos seus pares: Angola é um país de portas abertas, onde a história se respeita, a ciência se celebra e a paz se constrói todos os dias.
Os conteúdos do IX Seminário da OISC-CPLP e do III Encontro dos Jovens Auditores estão disponíveis no microsite do evento, em seminario.tcontas.ao.
Texto: Alexandre Cose e Filipe Lucas |
Recolha de imagens: Filipe Lucas e Mauro Teixeira