Jovens auditores de oito países da CPLP debatem, em grupos, uma auditoria simulada à digitalização dos serviços públicos

Na segunda parte do primeiro dia do III Encontro, os participantes partilharam experiências das suas instituições e começaram a analisar um caso prático sobre a fiabilidade da informação reportada por uma entidade pública. A discussão prossegue amanhã.

Luanda, 27 de Outubro de 2026 — Depois da palestra sobre a inteligência artificial e do almoço, os 18 jovens auditores do III Encontro da OISC-CPLP regressaram, ao início da tarde, à Sala de Conferências «Cadeiras Brancas», no Palácio da Justiça, para a segunda parte do dia: um trabalho em grupo, em forma de simulação, sobre a realização de uma auditoria de desempenho à transformação digital dos serviços públicos e à fiabilidade da informação sobre sustentabilidade.

Apresentações informais para conhecer realidades diferentes

Antes de entrarem no caso prático, e já organizados em quatro grupos que reúnem jovens de países diferentes, os participantes apresentaram-se, disseram onde trabalham e o que esperam do Encontro. A orientadora do trabalho, a Dra. Edna Rodrigues, chefe da 4.ª Divisão da Direcção dos Serviços Técnicos do Tribunal de Contas de Angola, pediu que a apresentação fosse informal, e o resultado foi um retrato franco das realidades das Instituições Superiores de Controlo (ISC) da Comunidade.

Os jovens auditores de Angola, Kátia Miguel, Fernanda Sete, Genesiana Domingos e Eloneida Maneco, falaram do trabalho da quarta divisão dos serviços técnicos e da fiscalização prévia. Genesiana Domingos recordou os quatro princípios da gestão — planear, dirigir, executar e controlar — para situar a auditoria na última fase: é o controlo que permite saber se as políticas alcançaram os seus objectivos. Eloneida Maneco sublinhou que a transformação digital deve considerar a dimensão ética e que o importante «não é apenas chegar lá, mas chegar bem», lembrando que há despesa executada cujo impacto os cidadãos não sentem. Ricardo Lueka, da Contadoria-Geral, descreveu o uso de ferramentas como o IDEA, a implementação do Sistema Integrado de Gestão do Tribunal de Contas e o aproveitamento do Excel, e defendeu que a adopção da inteligência artificial exige uma estratégia institucional.

Pelo Brasil, Luís Gustavo de Azevedo Santos, auditor do Tribunal de Contas da União, da Secretaria de Relações Internacionais, e Director de Cooperação Internacional, apresentou três ferramentas do Tribunal de Contas da União: o Lab Contas, repositório com dados de todo o governo federal que ultrapassam os 80 terabytes e permite o cruzamento de dados nas auditorias; o Chat TCU, plataforma de agentes de inteligência artificial ao serviço do auditor; e o e-Controle, sistema em que a auditoria é elaborada e registada de forma integrada. Por Cabo Verde, António Pinto explicou que a digitalização se iniciou em 2018, com um sistema interno de tramitação, e que as entidades já podem submeter as suas contas por essa via.

Mariana Bastos, de Portugal, que integra departamentos de auditoria ao sector local e de apuramento de responsabilidades financeiras, e Arsénio Tsambe e Carla Rui, de Moçambique, manifestaram o desejo de aprender com experiências mais avançadas e de contribuir para a transparência e a boa gestão dos recursos públicos. Paula Leite, de São Tomé e Príncipe, chamou a atenção para a necessidade de acompanhar a tecnologia, o que exige partilha de ideias e financiamento, e os representantes de Timor-Leste, Tomás Gusmão e Justinho Monteiro, descreveram os desafios próprios de uma instituição jovem, com recursos humanos limitados, que vê neste Encontro uma oportunidade de ganhar experiência com os colegas da Comunidade.

O caso prático: a informação da entidade é fiável?

Concluídas as apresentações, a orientadora apresentou o caso. Uma entidade pública reporta resultados de um processo de digitalização, por exemplo, quantos dos pedidos que recebe foram digitalizados e em quanto tempo, e os grupos têm de decidir se essa informação é credível. Para isso, devem perguntar como os dados foram recolhidos e como devem ser interpretados, a que período se referem e se a entidade planeou, implementou e acompanhou a digitalização de forma eficaz, económica e transparente.

A orientadora desafiou os jovens a ter olho crítico: verificar se a entidade «cozinhou» os dados para aparecer bem na fotografia, se a percepção dos cidadãos coincide com o que é reportado e se a informação que a entidade divulga, mesmo quando a prejudica, é consistente com o que se conhece do sector público. Pediu um leque de opções, e não um trabalho muito elaborado, e informou que os grupos poderiam indicar um porta-voz para as conclusões, que podem ser apresentadas nos quadros da sala. O tempo de trabalho decorreu até às 15h30.

Do número ao impacto, e a ética como «quarto E»

No final do dia, ao encerrar a sessão, a orientadora deixou uma reflexão aos jovens auditores. As auditorias, disse, não vão ser apenas números: vão ser impacto, social, ambiental e financeiro, porque é isso que define o desempenho e a sustentabilidade. Aos três «E» da auditoria de desempenho — economia, eficiência e eficácia — acrescentou um quarto, a ética: «um auditor corrompido não é um bom auditor», pelo que a integridade e os princípios do auditor contam, dentro e fora da instituição. Ao analisar uma política pública, concluiu, é preciso ter evidências suficientes e apropriadas, seguir metodologias e olhar para as leis, mas acima de tudo ser ético nas opiniões, porque o impacto dessas políticas atinge também os próprios auditores.

A discussão continua amanhã

A discussão não ficou concluída e prossegue amanhã, quarta-feira, 28 de Outubro. Os jovens foram convidados a reflectir, em casa, sobre o tema da manhã — «Como assegurar a qualidade da auditoria e a sustentabilidade das nossas ISC no actual contexto de transformação digital» — e a levar para o debate as conclusões do caso de hoje. Depois do debate, haverá uma pausa e a palestra «As ISC do futuro: Liderança, inovação e transparência para uma gestão sustentável», proferida por Edna Rodrigues e Jackson Aurélio, chefes, respectivamente, da 4.ª e da 5.ª Divisão da Direcção dos Serviços Técnicos do Tribunal de Contas de Angola, seguida de reflexão. Os resultados do Encontro serão apresentados no IX Seminário da OISC-CPLP, cuja cerimónia solene se realiza na quinta-feira, dia 29 de Outubro.

Acompanhe a jornada

O Tribunal de Contas de Angola assegura a transmissão em directo da jornada em formato híbrido, no canal de YouTube e na página de Facebook, bem como nas demais plataformas digitais da instituição. As notícias, o programa e as actualizações de cada dia estão disponíveis no portal do Tribunal, em www.tcontas.ao, e no microsite oficial do evento, em seminario.tcontas.ao.